22 abril 2016

ZERAR IDENTIDADE - RESET ME

Começar do zero...
Recomeços são coisa assustadora, páginas em branco seguidas de páginas viradas, estão dentro do mesmo livro, da mesma vida embora por vezes facilitasse nascer de novo. É difícil, com certeza que é difícil ainda que só se torne problemático quando perspetivado como impossível. Costumo afirmar que tudo tem solução, menos a morte, porém atualmente percebo que muitas mortes em vida são necessárias para de facto aprendermos a viver pleno. Palmilhamos os primeiros ciclos edificando uma identidade social, culturalmente aceite. Anos e anos dedicados a Ser quem somos! A determinada altura chegamos ao que parece o fim da estrada, com a insatisfação na bagagem nem percebemos bem qual o maior peso, o Eu ou o desânimo. Por momentos não seria mal pensado ser outra pessoa, noutro lugar... 

Muitos conseguem ser pontualmente outra pessoa, noutro lugar, talvez uma identidade mais verdadeira escondida por trás da máscara estática que fomos obrigados a adotar. Representar um papel, evadir-se numa fantasia, libertar-se numa aventura... pontualmente... e pontualmente é-lhes permitido zerar identidade. Bom mas não, não me apago!, gosto sempre de voltar à segurança daquilo que me construí, daquilo que me previ e é conhecido. Muito mais fácil ser-se mecânico, deslizar a vida sobre os carris do hábito mesmo que o trajeto e o horizonte permaneçam imutáveis.

Os crentes em reencarnação poderão sempre dizer, por esta vida está feito, venha outra tentativa de evolução. Esquecem-se porém da desmemoriação a que estão sujeitos: como saber se estão ou não repetindo vidas e vidas em movimento perpétuo, afinal há apenas uma coisa que mesmo inconsciente não se esquece e isso é o hábito. Que cansativo! para a alma e para os "deuses". Acontece que quando não tomamos as rédeas da nossa vida, o jogo altera-se inesperadamente, surge a necessidade de alterar os peões, as regras, a estratégia, caso contrário esta será mais uma vida descartável onde a evolução foi pouca ou nenhuma. Nestas ocasiões não é de estranhar um despedimento, um divorcio, uma doença grave, uma perda material significativa...

Uiiii sentimo-nos tão vitimas do destino! Verdade que aquela profissão, aquele casamento, aquele estilo de vida já não fazia sentido mas era aquela a minha identidade, aquilo que eu conhecia e dominava, agora... agora sinto-me NADA. Sempre tive medo deste Nada, sempre tive medo de Recomeçar do Zero... A primeira reação é de desnorteamento, é como ser deixado no Espaço profundo sem sentir a força da gravidade. Ser empurrado para o abismo desconhecido. Desabituado desta liberdade? Sem dúvida! Mas é nesse ponto zero que reside o teu ponto de mutação, onde não há nada, tudo é possível, um vazio potencialmente infinito de criação. Precisas que alguém puxe o teu tapete? Precisas que aliviem a tua bagagem? Então espera aí sentado, adormecido, por uma oportunidade para que alguém tenha a coragem de escolher por ti.

Ilustração de Vladimir Kush, o surrealista do realismo de metamorfose.
Linda demais a sua obra!